Entrevista

Cecília Dassi: do Projac à Psicologia

Se tem um assunto do qual Cecília Dassi pode falar com propriedade é sobre migração de carreira. Não bastasse ter vivido essa mudança pessoalmente, hoje, em sua nova profissão, auxilia profissionais que vivem este dilema.

Certamente você lembra do rostinho dela, ainda criança, na grade de programação da Rede Globo, onde atuou em nove novelas, além de séries, minisséries e outros programas, como Você Decide e TV Globinho, do qual foi apresentadora aos 15 anos. Cecília Dassi também fez dois filmes – A Guerra dos Rocha e Gonzaga, de Pai pra Filho, além de mais de 40 comerciais e peças de teatro, quando pode atuar, inclusive, como assistente de direção. Começou na televisão aos quatro anos e se manteve na TV por 17 anos, carreira que lhe rendeu vários prêmios e indicações.

Em 2013, no entanto, após algum tempo sem aparecer nas telinhas e já com o contrato com a emissora encerrado, Cecília Dassi anunciou sua retirada da carreira de atriz. Já formada em Psicologia, aos 23 anos, migrou para a nova profissão, que hoje lhe dá muito mais satisfação e significado à vida. E foi sobre essa trajetória que conversamos quando ela esteve na Baixada Santista para uma palestra no TEDx Santos sobre o lado positivo da Ganância.

Cecília Dassi
Fotos: Christian Jauch

Quando a Psicologia entrou na sua vida?

Cecília Dassi – Logo que eu me formei no ensino médio, senti a necessidade de conhecer outras áreas que não tivessem relação com a carreira de atriz. Sempre fui encantada pelo ser humano e pelo poder do autoconhecimento, então escolhi a Psicologia. Comecei a cursar a faculdade em 2007, mas precisei trancar em 2009 para me dedicar à novela Viver a Vida. Voltei em 2011 e concluí em 2013, desde então tenho o meu consultório, onde atuo como psicóloga clínica e coach, com a missão de ajudar as pessoas a serem as melhores versões delas mesmas.

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Você deixou uma carreia almejada por muitas pessoas e que, no senso comum, traz muita realização, fama e dinheiro. Como foi essa decisão?

Cecília Dassi – Aos poucos, durante a carreira como atriz, fui descobrindo que não era ali que estava a minha missão, que aquela profissão não preenchia o meu coração. Eu fiquei um bom tempo contratada pela emissora, mas sem trabalhar e não sentia vontade de ir para o Projac em busca de oportunidades. Tanto que me senti muito feliz quando o meu contrato acabou e eles não renovaram. Comecei a cursar psicologia por curiosidade, como um ‘plano b’, mas me encontrei ali. Eu me lembro que quando comecei a questionar minha carreira de atriz, por mais que ganhasse um bom dinheiro mesmo sem trabalhar, eu pensava ‘não quero essa vida de escassez’. Conhecer a psicologia foi transformador pra mim.

Como as pessoas que acompanharam você como atriz reagem ao saber que você deixou a carreira?

Cecília Dassi – Muitas pessoas me encontram e falam: ‘você tem que voltar a fazer novela, tem que voltar às telinhas’. Eu fico me questionando o porquê, já que sou muito feliz com meu trabalho hoje e me sinto realizada. Imagino que as pessoas pensem que ser ator famoso é o sonho de qualquer pessoa e por isso eu deveria valorizar esta oportunidade, mas o fato é que, assim como qualquer um, tenho o direito de dizer não aquilo que não me satisfaz.

Cecília Dassi

O seu público hoje, como psicóloga, acompanhou o seu trabalho como atriz?

Cecília Dassi – Alguns me acompanham desde novinha e tem muitos que me conhecem porque a mãe conta que me via nas novelas (risos).

‘quando negamos nossa ganância, nós pegamos nossos maiores sonhos e trancamos em uma caixinha’

Qual sua principal atuação na psicologia?

Cecília Dassi – Minha missão como psicoterapeuta e coach é ajudar as pessoas a desenvolverem seus potenciais para viverem uma vida autêntica, produtiva e plena. Atendo muitas pessoas infelizes com a vida profissional e com medo de migrarem de carreira. Essa migração precisa ser feita aos poucos e exige coragem. Eu sei o quanto é desafiador largar uma carreira já consolidada por algo novo, pois vivenciei isso na pele. Mas as pessoas precisam entender que não são as únicas insatisfeitas com uma vida que supostamente deveria proporcionar prazer e felicidade, mas, ao contrário, traz frustração, crises de pânico e infelicidade. Não dá para colocar os pés pelas mãos e se afobar, mas é possível, sim, aos poucos, mudar e ser feliz. Há pessoas que não podem ou não conseguem migrar de carreira, então nós tentamos ressignificar aquele trabalho e transforma-lo em algo prazeroso.

Você abriu mão da sua infância e adolescência em prol da carreira. Como deve ser a atuação dos pais junto aos filhos que começam a trabalhar tão novos na televisão?

Cecília Dassi – Eu também desenvolvo um trabalho com atores mirins para que eles consigam dar conta dessa responsabilidade. Realmente eu precisei abrir mão de muitas coisas para trabalhar, mas isso não foi um peso pra mim, pois meus pais sempre me apoiaram e estiveram presentes. É fundamental que os pais acompanhem a carreira das crianças e que entendam a importância de um acompanhamento profissional, principalmente para que não cresçam frustrados e se sintam obrigados a permanecer em uma profissão que não lhes dá prazer.

Você tem um canal no youtube, que soma mais de 6 mil inscritos. Qual o público deste canal, sobre o que você aborda nos vídeos?

Cecília Dassi – O canal é para todos os que se interessam por pessoas, um espaço para compartilhar ajuda, incentivar as pessoas a terem mais esperança. Não é um canal sobre psicologia, é um canal sobre o ser humano, sobre superação. Minha ideia é quebrar o estereótipo sobre psicologia e aborda-la de maneira leve, para que chegue a todos.

Cecília Dassi

Durante sua palestra no TEDx Santos você falou sobre ganância. Que importância teve a ganância em sua vida?

Cecília Dassi – Eu comecei a ganhar dinheiro trabalhando muito cedo, mas me sentia culpada por gastar meu salário. A ideia que eu construí sobre ganhar e gastar dinheiro era de que isso era egoísta, algo de gente mau caráter, sem empatia. Olhar para um mundo de tanta escassez e desejar ter mais parecia ser muito injusto. E quando eu migrei de carreira e passei a fazer aquilo que me dava satisfação, ainda assim eu não me sentia à vontade em ganhar dinheiro. Comecei a entender que eu tinha algum problema na relação com o dinheiro e resolvi investigar quem eu era e o que eu queria de fato. Descobri que eu queria ajudar as pessoas a serem melhores, mas eu não queria apenas ajudar aquelas pessoas que já estavam predispostas a serem ajudadas, eu queria ajudar aquelas que tinham preconceito com a psicologia, que não estavam abertas. Eu queria quebrar barreiras dando palestras, cursos, sendo ouvida pelas pessoas. Foi então que entendi que sim, eu era gananciosa, pois queria mais, não apenas o necessário. Isso me incomodou, pois eu achava que ser gananciosa era ruim. Resolvi pesquisar sobre riqueza, abundância e as trocas entre os indivíduos. Foi quando descobri que a ganância está presente na humanidade desde sempre e que foi ela que nos trouxe até aqui. O homem sempre vai querer mais, quer deixar um legado, fazer diferente. A palavra ganância vem do castelhano ‘gana’, que significa desejo, vontade e o verbo ‘ganar’ significa apenas vencer, conquistar. E isso não tem nada de errado, ao contrário, quando nós negamos nossa ganância, nós pegamos nossos maiores sonhos e trancamos em uma caixinha. Transformamos eles em frustração, rancor e vitimização. Isso sim é ruim, pois deixamos de ser os protagonistas das nossas vidas. Aceitar minha ganância foi algo libertador, pois me permitiu correr atrás do meu sonho e poder fazer, hoje, aquilo que me deixa feliz, sem culpa.

Você diz que hoje é feliz com sua carreira. O que é felicidade para você?

Cecília Dassi – Felicidade é um caminho que faça sentido, é algo sólido, que fica evidente quando você está trilhando o seu rumo.

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O Autor

Diego Brigido

Diego Brigido

Jornalista e bacharel em turismo, especialista em comunicação, turismo e hospitalidade.
Editor da Revista Nove Cidades.

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